- Ano IV - nº 3(31) - Fevereiro de 2010.                                                                     Direção: Osiris Costeira

YOGA - Sri Ananda Deha - anandadeha@gmail.com

YOGA E ECOLOGIA: CIÊNCIAS IRMÂS? 

Espiritualidade Socialmente Engajada - Parte I

 

Saudações luminosas a todos os leitores!!!

Atendendo a pedidos, gostaria de continuar na linha de raciocínio dos artigos de Novembro de 2007 e Outubro de 2009 (Caso dê, leia-os antes). Venho discutindo a questão de nossa atual crise de percepção na perspectiva da Ecologia e do Yoga. Indo mais além, gostaria de discutir aqui quais são nossas atitudes diante desta questão. Ou melhor, quais deveriam ser nossas atitudes.  Esta discussão merece uma maior atenção. Por isso, irei dividi-la em três partes.

Para isso, começo trazendo a visão de um dos ramos da Ecologia chamado de Ecologia Profunda (Deep Ecology) para introduzir nossa discussão. Trago novamente a Ecologia devido ao grande número de pedidos para aprofundar nesse tema.  Depois irei trazer a visão do Yoga refletindo sobre nossas atitudes diante da vida, para em seguida, finalizar a sequência de artigos somando a questão dos valores universais, os quais sempre são citados, mas nunca desenvolvidos. Acredito que a realização prática destes valores em nossas vidas pessoais pode ser um maravilhoso caminho para a mudança de curso de nossa sociedade planetária. A finalidade destes artigos é trazer uma visão espiritual e ao mesmo tempo engajada na sociedade.

Na acepção mais corrente, o termo Ecologia, proposto pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919) em 1866 em seu livro Generelle Morphologie des Organismen, designa: as relações entre os organismos e seu meio ambiente bem como a ciência que estuda essas relações. Em alguns casos se divide a ecologia em dois ramos, (a) a auto-ecologia, que é o estudo da ecologia de apenas uma espécie, e (b) a sinecologia, que é o estudo da ecologia de ecossistemas completos. Em outras palavras: Ecologia é a ciência das relações entre os organismos e o mundo externo circunvizinho. Mais precisamente é o estudo das relações que interligam todos os membros da casa Terra. Quando colocamos nesta definição o auto-estudo, ou seja, o autoconhecimento, notamos uma aproximação muito bem vinda entre Ecologia e Yoga (auto-ecologia).

A Ecologia Profunda é o ramo da Ecologia que melhor discute esta questão. Para falar em Ecologia Profunda, devemos falar primeiramente de uma diferente visão de mundo que emerge no meio científico, sobretudo no final do século passado e início deste. Esta pode ser chamada de “holismo” (do grego holos: o todo), que concebe o mundo como um todo integrado e não como uma coleção de partes dissociadas. “Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo ‘ecológica’ for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual” (Capra, 2004). De acordo com o mesmo autor, “a percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza e, em última análise, somos dependentes desses processos” (Capra, 2004).

O termo “ecológico” aqui usado está associado com a escola filosófica e movimento popular global conhecido como “Ecologia Profunda”. A escola filosófica foi proposta pelo filósofo norueguês Arne Naess em 1973, com sua distinção entre “ecologia rasa” e “ecologia profunda”, e como uma resposta à visão dominante sobre o uso dos recursos naturais. Arne Naes se inclui na tradição de pensamento ecológico-filosófico de Henry Thoreau, proposto em Walden, e de Aldo Leopold, na sua “Ética da Terra”. Denominou de Ecologia Profunda por demonstrar claramente a sua distinção frente ao paradigma dominante (materialista/capitalista). De acordo com Capra (2004), esta distinção é hoje amplamente aceita como um termo muito útil para se referir a uma das principais divisões dentro do pensamento ambientalista contemporâneo.

Nas palavras deste mesmo autor (2004): “A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.” (Capra, 2004)

O quadro abaixo nos ajuda a entender melhor essa diferente visão de mundo, a qual Arne Naes propôs na década de 70:

Visão de Mundo antropocêntrica

Ecologia Profunda

Domínio da Natureza

Harmonia com a Natureza

Ambiente natural como recurso para os seres humanos

Toda a Natureza tem valor intrínseco

Seres humanos são superiores aos demais seres vivos

Igualdade entre as diferentes espécies

Crescimento econômico e material como base para o crescimento humano

Objetivos materiais a serviço de objetivos maiores de auto-realização

Crença em amplas reservas de recursos

Planeta tem recursos limitados

Progresso e soluções baseados em alta tecnologia

Tecnologia apropriada e ciência não dominante

Consumismo

Fazendo com o necessário e reciclando

Comunidade nacional centralizada

Biorregiões e reconhecimento de tradições das minorias

Modificado de: Naess A. The shallow and the deep, long-range ecology movements: a summary. Inquiry 1973;16:95:100.

Em última análise, a percepção da Ecologia Profunda é percepção espiritual. “Quando a concepção de espírito humano é entendida como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com o cosmos como um todo, torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Não é, pois, de se surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais” (Capra, 2004), quer falemos de Filosofia Védica (Filosofia Hindu), em budismo, em Taoísmo, na espiritualidade dos místicos cristãos ou na filosofia e cosmologia das tradições nativas norte-americanas.

A essência da Ecologia Profunda, de acordo com seu criador, consiste em formular questões mais profundas. “É também essa a essência de uma mudança de paradigma” (Capra, 2004).

“Portanto, a ecologia profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte.” (Capra, 2004)

É neste contexto que se enquadra esta presente discussão, ou pelo menos tenta se enquadrar. No momento em que percebe que todos os seres possuem igual importância no geossistema Terra, e este no Universo como um todo. Na segunda parte desta discussão, trarei a visão do Yoga para discutir nossas atitudes diante da vida. Não deixe de ler!

“Temos que tomar responsabilidade pela realidade que Co-criamos, e ao invés de nos lamentarmos e ficarmos passivos aos acontecimentos, podemos nos auto-curar e contribuir com o coletivo de pessoas e seres que já trabalham pela transformação do Planeta Terra. Estamos sempre olhando para fora. Simplesmente olhe para dentro!”

Nithyanandam (Viva em Eterno Êxtase)!!!

 

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