- Ano XI - nº 1 (77) - Dezembro 2016/Março 2017.                            Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

OS SONHOS SONHADOS DORMINDO E ACORDADO - 1ª Parte

Mensageiro dos Deuses

 

Desde a remota Antiguidade o sonho é considerado como aviso divino ou sobrenatural, destinado a prevenir o ser humano quanto a determinados acontecimentos. Ainda hoje, as crendices populares lhe atribuem esse papel.

Entre os povos primitivos, a Oniromancia, a ciência que interpreta os sonhos, possuía quase sempre caráter sagrado. Acreditavam que os deuses enviavam avisos aos Homens, os quais eram interpretados pelos sacerdotes e, depois, transmitidos ao povo.

Pode-se mesmo dizer que o sonho constitui uma das experiências em que se fundamenta o Animismo.

Considerável importância tiveram os sonhos no Egito, tidos como mensagens da deusa ISIS. Na Babilônia, também encontramos a valia dos fenômenos oníricos principalmente quando vistos sob a característica de premonitórios.

E, são clássicos os sonhos bíblicos com o mesmo cunho divinatório, como o que José - o Hebreu - interpretou ao Faraó.

Baile de Máscaras

O sonho constitui, segundo a visão freudiana, um dos mecanismos de defesa do EU que satisfaz, no plano imaginário, os desejos reprimidos da vida quotidiana, a fim de garantir seu equilíbrio emocional.

A "Teoria dos Sonhos" constitui parte fundamental da obra de Sigmund Freud, iniciada com a publicação de "Die Traumdeutung", em 1900.

O Homem quando dorme se desliga da "vida exterior" e permanece submetido a estímulos internos, fisiológicos e psicológicos: quando está com fome, pode sonhar que está comendo; quando tem preocupações e conflitos, seus sonhos revelam seus problemas íntimos.

Na criança, geralmente, os sonhos revelam frustrações de desejos do dia anterior. No adulto, os desejos irrealizados não poderiam aparecer diretamente na consciência uma vez que a censura  interior - Super Ego - bloqueia as idéias inaceitáveis ao equilíbrio do Ego, impedindo a conscientização total.

Assim, a maioria dos sonhos é representada por dois aspectos: o conteúdo manifesto ou enredo das imagens (a aparência dos sonhos), e o conteúdo latente (a verdadeira significação do sonho), oculto pela elaboração onírica do sonhador.

Através da interpretação chega-se ao significado do sonho e da "coisa" reprimida, transformando-o, segundo Freud, no único "expediente" de que se vale o Homem para exprimir, sob forma disfarçada, idéias e sentimentos racionalmente inaceitáveis para ele.  

Sua importância no tratamento psicanalítico é fundamental.

 

REM : O sonho quase palpável

Evidenciada a existência do Sono REM, W. Dement demonstrou que ao se despertar, sistematicamente, indivíduos em experiência voluntária no momento do Sono Paradoxal ou REM, 80% estava sonhando. Inversamente, despertados fora desta fase declaravam não haver sonhado, numa proporção que indica uma diferença significativa para com os percentuais precedentes.

As evidências permitiram empreender estudos mais profundos sobre os sonhos, os quais, tudo leva a crer, seriam elaborados em forma de vários períodos de alguns segundos, ao se dormir profundamente, sendo memorizados como se fora um único.

É errônea, portanto, a suposição de que os sonhos sejam únicos e instantâneos. Eles duram, em média, um total de 5 a 20 minutos, podendo, numa noite de sono, teoricamente atingir até 90 minutos.

O que se memoriza é, unicamente, uma fração daquilo que se sonhou, inclusive  os indivíduos que alegam nunca sonhar; forçosamente tiveram a mesma quantidade de períodos de Sono Paradoxal ou REM que os sonhadores "habituais".

Esses períodos podem ser induzidos por uma excitação sensorial, aparecendo nesses casos depois de um "Complexo K", isto é, de um grupamento de onda, no EEG, típica de excitação externa.

Durante a atividade onírica induzida por um ruído de pedaço de papel, captado e analisado durante o sono fisiológico, se observa no traçado do EEG atividade lenta generalizada, ausência de reações psicogalvânicas e lentificação do ritmo respiratório.

O ruído do papel faz aparecer um grupo de ondas de frequência rápida, ligeiramente inferior à Alfa, o que corresponde - durante os segundos que persiste -  a um sonho que poderá ser, posteriormente, relembrado.

O estudo dos fenômenos dos sonhos ganhará subsídios de grande significância, esclarecedores, com o aprimoramento dos conhecimentos sobre o Sono REM.

A valiosa história do Sono REM recorre, constantemente, aos dados da poligrafia para descrever minuciosamente a fenomenologia  desse período nos animais, bem como aos dados da Ontogênese e da Filogênese, ao situar o fenômeno na evolução animal e na das espécies.

Inicialmente, técnicas neurofisiológicas clássicas permitiram delimitar, grosseiramente, o ponto de partida do Sono REM ao nível da Protuberância.

Posteriormente, graças à conjunção harmoniosa dos dados da Neurofarmacologia e da Histoquímica, foi possível localizar com exatidão as estruturas desencadeantes do Sono REM ao nível de certos grupos neuronais, cuja individualidade histoquímica é muito marcante.

Segundo Jouvet, parece existir uma relação entre o Sono REM e a complexidade do Sistema Nervoso Central, pois:

a) nos peixes e nos répteis, que apresentam fases de sono lento, não foi evidenciado o Sono REM;

b) nas aves existe, mas de maneira rudimentar, abrangendo, somente, 1 a 2% do sono total;

c) existe em todos os mamíferos estudados. Parece que os animais predadores, tais como os carnívoros, que podem obter rapidamente seus alimentos e dormem muito, apresentam um percentual relativamente alto de Sono REM (entre 15 a 30% de sono total);

d) os animais que costumam ser caçados, como os herbívoros que consagram muito mais tempo à alimentação e dormem pouco, só apresentam curtas fases de Sono REM: 4 a 6%.

A evolução ontogenética do Sono REM revelou um fato "aparentemente" paradoxal, ao contrário do que se esperaria dos dados filogenéticos (visto que a Ontogênese "recapitula" a Filogênese, segundo Haeckel), além de ser particularmente importante desde o nascimento.

Deste modo, no gatinho recém nascido as fases do Sono REM representam mais de 80% do tempo de sono total. O mesmo se passa com o Homem: nos lactentes representa mais de 50%.

Parece, portanto, que o Sono REM desempenha papel primordial nas primeiras etapas do desenvolvimento do Sistema Nervoso.

Tendo em atenção a existência de movimentos oculares desde o nascimento, em que os recém nascidos ainda são "cegos", é igualmente provável que exista um certo código PGO e que ele preceda a entrada das informações visuais no Sistema Nervoso Central.

PGO, ou Atividade Ponto-Geniculado Occipital, é apontada como o mecanismo responsável pelos movimentos oculares durante o Sono REM, existindo ao nível do núcleo geniculado lateral, ou igualmente ao nível da Protuberância e do Córtex.

A Reserpina, cuja ação mobilizadora das  monoaminas (Serotonina, Dopamina, Noradrenalina) é bem conhecida, e capaz de desencadear eletivamente a atividade PGO, até mesmo durante o despertar, ou o sono lento.

Os IMAO (Inibidores da Mono Amina Oxidase) têm uma ação inibidora extremamente importante sobre o Sono REM dos gatos, ao ser administrada, por injeções sucessivas  de Nialamida, durante várias semanas. Depois de sustado o tratamento, produz-se, por vezes, ligeiro ressalto do Sono REM.

Admitiu-se, inicialmente, algumas funções básicas da Serotonina na gênese do sono lento, ao se observar que sua diminuição, provocada pela Paraclorofenilalanina, causava insônia reversível por meio de injeção secundária de 5-Hidroxitriptopano, o precursor imediato da Serotonina.

Posteriormente, certos dados indiretos orientaram para a existência de mecanismos catecolaminérgicos no seio do Sono REM.

Assim, a Alfa-Metildopa, que seria a precursora de um falso transmissor, como a Alfa-Metil-Noradrenalina, é dotada de intensa ação inibidora sobre o Sono REM.

Contudo, esses dados são ainda por demais indiretos para provar que os neurônios monoaminérgicos sejam os únicos responsáveis pela gênese dos diferentes estados do sono.

Persistem, também, outras tantas incógnitas ainda não desvendadas, como, por exemplo, o significado da atividade PGO, ao invadir o cérebro no decurso do Sono REM e ocasionar o movimento dos olhos, em perseguição às imagens fantásticas de um sonho.

 

Sonhos que o Homem não pode sonhar

Deixamos para depois da série de comentários neurofisiológicos que expusemos, algumas observações sobre o mais fascinante dos capítulos que se lança no conhecimento dos sonhos, "cientificamente sonhados".

Poderíamos resumir todo esse fascínio em uma única pergunta, envolvendo todo um mundo até agora intocável: OS ANIMAIS SONHAM ?

Parece que SIM. Há muitos pesquisadores que se dedicam exaustivamente à pesquisa desses sonhos. Mas será que aquilo que os animais "sonham" poderia ser chamado de "sonhos", ou eles sonhariam um sonho diferente, de um sonhar todo próprio e peculiar a cada espécie?

Uma das principais condições para a existência de sonhos nos animais superiores é, sem dúvida, que o Sistema Nervoso, e de um modo geral todo o organismo do animal adormecido, conserve toda a capacidade funcional de que é possuidor.

Durante a hibernação, portanto, não deve haver a formação de sonhos; da mesma forma, durante a rigidez hipotérmica (répteis e outros pecilotérmicos) provavelmente não existiriam fenômenos oníricos pela mesma razão de hipoatividade vital desenvolvida.

Em assim sendo, supõem-se que o animal esteja apto a sonhar, somente, durante o repouso normal, comparável ao sono humano.

Quem conta essas "estórias" é H. Hediger, diretor do Jardim Zoológico de Zurique, em trabalho editado em Basiléia, em 1961.

O problema fica, então, restrito ao simples fato de se saber: quais os animais que dormem no sentido humano do termo?

Um dos aspectos fundamentais para se considerar as condições básicas de determinada espécie animal é na sua maior ou menor capacidade de memorização dos acontecimentos.

Certas espécies possuem até uma memória excelente, e, segundo alguns especialistas, a memória de lugares (como a da raposa e a do cavalo) ultrapassam de longe a do Homem.

Graças  a estímulos e pontos de referência o animal tem possibilidade de se lembrar de certas experiências como, por exemplo, de uma luta ou uma refeição.

Paralelamente, dispõe também de certa fantasia. O holandês FJJ Buytendijk, que se ocupa da Psicologia Animal, falava já em 1939 da "fantasia vital" do animal que se manifesta mais particularmente durante os jogos.

Para o gato que brinca, a bolinha de papel não é um objeto inanimado, e sim qualquer coisa viva; talvez, inclusive, uma presa. Na sua "fantasia vital", o animal atribui  ao seu brinquedo toda espécie de propriedades que o excitam a fazer movimentos que produzam jogos.

Carl Gustav Carus (1789-1869), admitia na sua "Psicologia Comparada" que todos os mamíferos e pássaros sonham frequentemente, e o cão mais do que todos os outros.

Os estudos médicos-psicológicos do italiano Sante De Sanctis (1862-1935) são resultado da observação mais crítica, tendo por tema o sonho dos animais em geral, e do cão em particular.

Resumindo os resultados obtidos - principalmente junto a caçadores e criadores - conclui que não somente todas as raças caninas sonham, mas também os animais superiores em geral, os mamíferos e os pássaros.

"É certo", escreveu ele no capítulo sobre o sono dos animais, "que, com relação aos sonhos, a diferença entre o Homem e o animal é insignificante; é uma questão apenas de graus."

Deve-se a Rudolf Menzel, médico e cinólogo, observações aprofundadas com relação às primeiras manifestações oníricas do cão de caça, em 1937, quando ainda jovens.

Durante 16 anos estudou o comportamento de aproximadamente mil cães. Menzel distinguiu diversos tipos de sonhos no cão: os relativos à nutrição, os que se manifestavam por rosnados e latidos,  e os relativos às corridas.

Num cãozinho de 24 dias, Menzel observou ganidos em relação a um longo sonho de conteúdo alimentar e de corrida. Faz essa observação à noite, após um dia inteiro de uma experiência nova e excitante: com efeito, o cão entrara pela primeira vez no escritório do pesquisador e ali adormecera, perto do aquecedor, depois de muito brincar nesse novo ambiente.

Inúmeras observações de inteligência, a respeito de vários tipos de animais, como a do cavalo (Stefan van Maday - 1912 e Hempelmann - 1928), gato (Hempelmann - 1926), chimpanzé (MH Baege - 1928 e Kellog - 1933) urso branco (KM Schneider - 1933), enriquecem o imenso acervo de documentos sobre os sonhos e os animais.

 

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